Saudades de Marcinha
Quando me mudei para meu apartamento atual, um dos defeitos que observamos foi a proximidade do prédio vizinho. A impressão é que poderíamos dar a mão para o vizinho no mesmo andar. Levou mais de ano, mas um dia o prédio começou a ser habitado. A incômoda invasão de privacidade se confirmou. Podíamos ver o claramente o que ocorria no prédio ao lado o que implica que poderíamos ser vistos. E dá-lhe cortina e persiana para evitar a bisbilhotagem alheia.
De todos os novos moradores, porém, uma não se importava com cortinas, pelo menos não na sala de seu lar. Talvez pela agonia de morar num lugar pequeno, ela deixava sempre as cortinas da sala abertas e passava um tempão fazendo suas coisas. Passamos a observá-la. "A mulher da frente só chegou agora"; "A mulher aí da frente tá falando alto no telefone" "Os cachorros da mulher aí da frente estão enchendo o saco".
Cansados da situação de ter que repetir "A mulher aí da frente" e em vista da proximidade com a moça, decidimos batizá-la de Marcinha, pelo simples fato de que ela tinha muita cara de Marcinha. Ela tinha dois cachorros. Um poodle chatíssimo que chamamos de Bugu e um bassê bacana que botamos o nome de Perdigão (posteriormente descobrimos o nome real dele e não era bonito. Perdigão é bem melhor). Desse dia em diante, com nomes, passamos a ter uma convivência muito mais harmoniosa com a mulher aí da frente.
Descobrimos que a Marcinha era neurótica por limpeza, não raras foram as vezes em que acordamos porque ela estava passando seu aspirador semi-industrial nos sofás (suponho) cheio de pêlos dos cães.
Descobrimos que Marcinha era espírita. Marcinha levava amigas pra casa, às vezes, um amigo. Marcinha trocou o desktop por um notebook e passou a gastar muito mais tempo na internet. Marcinha ia pro trabalho de metrô. Marcinha passava creme nas nádegas depois do banho.
A intimidade desenvolvida tornou muito menos incômoda a curta distância entre os prédios. Afinal, era como uma amiga, não tinha problema se ela nos visse de pijama, comendo pipoca. Era a Marcinha mesmo.
Um par de vezes, cruzamos com a Marcinha na rua. Ela, indo pro metrô a pé. Nós, de carrro.O dilema era dar carona a ela, nossa amigona, e correr o risco de sermos vistos como loucos que oferecem carona para qualquer uma e, pior dos mundos, descobrir que o nome dela não era Marcinha. Diante do horror dessa possibilidade, não estragamos a caminhada dela.
Tudo ia bem, até que um dia chegamos em casa, abrimos a cortina para saber o que se passava naquele momento com a Marcinha e não havia nada. Sem móveis, sem cachorros, sem a cortina. Sem o varal que ela fixou bisonhamente no teto da varanda. Sem Marcinha. Ela partiu. Deve ter sido uma mudança rápida e organizada - como do feitio de Marcinha. Não deixou nem um bilhete. Nem um aviso na janela. Nada. Apenas foi embora.
Hoje, não observamos mais a vida de nenhum vizinho. Primeiro, que todos mantém as cortinas fechadas, na maior parte do tempo. Segundo, estamos receosos de sofrer outra separação dolorosa e sem aviso prévio.
Imagino que agora Marcinha esteja em casa, na internet. O Bugu está latindo, o Perdigão dormindo nas costas do sofá. Ela vai arrumar tudo antes de chegar um cara bem vestido num carro com mais um casal. Amanhã, ela acorda cedo, pra passar o aspirador. E, do outro lado da janela, certamente alguém a observa. Não somos mais nós, mas certamente há alguém que olha atentamente. Assim espero.
Escrito por Sbub �s 18h08
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