Conversa de Homem
Diz a lenda que as três coisas que os homens conversam quando se juntam são duas: mulher.
É uma meia verdade. Pode até ser que o papo predomine nas mesas de bar, depois de umas cervas. Mas esse não é o tema central de conversas em eventos, digamos, mais sociais. Por exemplo, entre os maridos e namorados de mulheres que são colegas de trabalho. Quando não há intimidade, ninguém arrisca um "caraca, que peitão!", por motivos até bastante óbvios.
O que as mulheres não sabem e muitos homens não percebem é que as rodinhas masculinas das festinhas sem intimidade o assunto principal é dinheiro. Não os rumos da economia nacional, nem as carteiras de investimento. A discussão é quanto cada coisa custa. Não é uma coisa simples como parece e obedece a uma série de regras.
A primeira e mais simples hipótese é conversas sobre os bons negócios que se fez. Não pela empresa, sim nos negócios pessoais. O cara chega e diz "Comprei um computador, completo, monitor de 17. Paguei dois paus." Embora pareça simples, esta assertiva esconde várias das regras implícitas na Conversa de Homem. Ao contar, é preciso que o bem ou serviço tenha pelo menos uma descrição técnica e uma vantagem. No caso, a vantagem é ser completo. A descrição técnica é "monitor de 17". Também é fundamental falar do dinheiro com segurança e um pouco de desprezo.
Não que isso seja uma conversa de gente rica. Não importa o valor e sim a forma como se fala. "Esses dias fui pegar uma lotação e passou uma dessas vans arrumadinha: cd, ar condicionado e cheia de mulher. Depois que entrei é que vi não tinha grana. Convenci o cara que cobrava e só paguei um real, menos que o preço do ônibus". Como se vê, a frase conta com os requisitos já mencionados. O sujeito que pegou a lotação deve angariar, portanto, o respeito de seus iguais.
Porém, como não vivemos na era do escambo, os negócios pessoais não duram mais que uma hora. O próximo passo é calcular o preço das coisas. Fazer estimativas, chutar. Tudo dentro da regra:
"Essa festa deve ter o quê? umas 250 pessoas. Contando que tem salgado, bebida e mesa de frio, não deve ter saído por menos de uns 60 reais por pessoa. Mais pessoal, decoração, essas coisas, deve ter custado uns 20 paus."
Observem que o desprezo com que se fala de R$20.000,00 é o mesmo de referir-se a R$2.000,00 ou R$1,00. Mas os outros elementos são distintos. Agora, a manha é estipular tudo por alto. Se você acha que é 15, diga que é 30. E não vale demorar para somar, multiplicar ou elevar à terceira potência. Se não dá pra calcular direito, fale o valor mais alto que daria. Nesse caso, é permitido falar sobre coisas não-monetárias, desde que quantificáveis:
"Cara, se cada pessoa que tem computador manda dez e-mails por dia, em média, então deve ter uns dois trilhões de e-mails circulando nesse exato momento."
Não importa que não faça sentido. A disputa subseqüente a afirmativa pode ser no sentido de corroborar os dados apresentados - até aumentá-los - ou contestar. Mas atenção, contestar é tarefa para poucos. Geralmente, só aos mais experientes se reserva esta técnica. Como o objetivo é fazer contas altas, querer reduzi-las é um sinal de fraqueza, a não ser que haja uma defesa hábil. Você vai precisar de números, que podem nem ser suficientes se todos na roda não gostarem de você. Neste cenário, a disputa se assemelha a uma batalha:
"A estatística mais atual aponta que só 10% da população do mundo, de 6 bilhões de pessoas, tem acesso ao computador. Então são 600 milhões. Se cada um mandar dez e-mails, vai dar 6 bilhões"
A diferença gritante pode desmoralizar o autor da primeira frase, por ter chutado com muita força no intuito de sobressair-se entre os convivas. Certamente, haverá uma reação:
"É. Mas a média de dez e-mails é para usuários normais. Contando com os spammers, que mandam milhares, dezenas de milhares de e-mails todos os dias, então deve chegar perto de uns 150 bilhões!"
O cálculo apressado e sem noção coloca o autor incauto em desvantagem. O homem experiente tem agora seu oponente sob sua espada. Ele pode apresentar novos cálculos, mas ninguém vai prestar muita atenção, pois não são os cálculos que interessam, sim os valores altos. Com a destreza do espadachim, ele apenas tripudia o inimigo derrotado:
"Pode ser. Mas é bem menos que dois trilhões"
Guerra terminada, alguém comenta sobre a beleza de empadinha que estão comendo, para não ficar um vazio na conversa. O vencedor, glorioso, abre mais uma cerveja. O perdedor, humilhado, começa a calcular quantos vidros de azeitona devem ser gastos na preparação de todas as empadinhas feitas pelo bufê ao longo do ano ou, por que não, desde que foi inagurado.
A sorte está lançada!
Escrito por Sbub �s 08h33
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