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Vou falar sobre futebol. E não vai ser rápido.
Meu bom amigo Serbão
concorda comigo em tudo. Canhoto, guitarrista e jornalista, o maior especialista
em literatura moderna da blogosfera escreveu um post sobre o nosso brilhante
técnico Carlos Alberto Parreira, no qual eu concordo em quase tudo, menos quando
ele diz que até que o Ricardinho é um bom jogador.
No texto, ele fala que
o Parreira atua como administrador de empresas. Eu concordo. E dos
piores.
Parreira escalou um time no começo da copa que, visivelmente, tem
dificuldades de criar. Todos os jogadores são bons, alguns muito bons, outros
nem tanto, mas não tava funcionando. No segundo jogo, o time até que melhorou um
pouquinho. Mas não deixou de ser um time limitado e previsível.
Aí, no
terceiro jogo ele escala um time com jogadores que, se não são melhores (sim,
falta muito pro Gilberto ser melhor que o Roberto Carlos), estão melhores, num
melhor momento. E ainda por cima jogaram em posições mais confortáveis. Claro
que o time jogou melhor.
Aí ficou uma dúvida clara pro Parreira, que ele
até falou, dublado pelo Zeca Camargo: Vai ser foda tirar o Emerson para colocar
o Gilberto. E também ia ser foda fazer as outras alterações.
Aí está uma
dúvida para um bom administrador de empresas: focar no resultado (um time que
joga melhor) em detrimento da moral (desmotivar os titulares, podendo causar
problemas no grupo) ou o contrário. Parreira escolheu o contrário. Focou na
moral e torce para que o time melhore (por milagre, porque nem treinando pra
isso ele está).
Qualquer bom administrador de empresas moderno focaria no
resultado e resolveria a moral de outro modo. com discurso, com motivação, dando
a chance para os titulares entrarem no meio do jogo...
O que prova que,
mesmo como administrador o Parreira é ruim de serviço.
Se o Parreira
fosse administrador, seria dono de um pequeno escritório de despachante, ou algo
assim. Como técnico, Parreira é técnico de time pequeno: olha os sucessos
dele:
Classificar o Kwait, a Arábia Saudita, e outras bizarrices para a
Copa. Levar o Bragantino às finais.
(Vou resistir a piadinha com
Fluminense e Corinthians).
No resto, inclusive Valência e NY Metrostars
(!!!), ele entrou, saiu, e não fez diferença.
Na seleção de 94, ele fez
só armar um esquema defensivo e deixar o Romário, em sua fase mais brilhante,
resolver lá na frente. Sorte que ele teve a lucidez de convocar o Romário em
cima da hora, se não a gente não tinha nem participado.
Estragou dois
jogadores: Raí e Zinho, também em suas melhores fases, foram anulados pelo
esquema defensivista.
As pessoas dizem que tudo bem, porque naquela
época os talentos eram escassos... Mas o Ronaldo, que já fazia miséria, estava
no banco, assim como o Viola, Infernal. Marcelinho Carioca colocava a bola onde
queria. Mas disciplina, assim como moral, era mais importante do que
resultado.
Hoje, o Parreira faz o mesmo com o Ronaldinho, coitado, que
está quase jogando como volante. Dá saudade de ver ele jogando contra a
Inglaterra em 2002. Adriano, que é um bom centroavante oportunista assim como o
Túlio, está ganhando apelido de cone, poste... (assim como o Zinho enceradeira).
Ronaldo, herói dos heróis da seleção, está sendo chamado de gordo. Roberto
Carlos, um dos laterais esquerdos mais fodas da história da seleção, está sendo
chamado de mascarado, lento, grosso...
Eu também acho que o Brasil pode
ganhar, porque os adversários também são defensivos e acabam se resolvendo no
talento individual (Do Zidane, do Maniche, do Beckham...), e em talento
individual o Brasil ainda é o melhor e o maior. Mas nem todos são apáticos como
em 1994 e 2002. Alemanha, Argentina e Portugal são times vibrantes.
Quer
saber, não existe futebol-espetáculo. O que existem são clipes, feitos anos
depois, só com as jogadas geniais, que fazem o time parecer incrível. Mas a
própria final da copa de 1970 é um jogo chato e lento, com uma dúzia de jogadas
geniais. E mesmo que o Brasil perca pra França, já dá pra fazer uns três
comerciais da nike só com lances geniais como o passe do Ronaldinho pro
Gilberto, o gol do Zé Roberto, o Drible do Ronaldo no goleiro de Gana, os passes
do Ricardinho no jogo das oitavas, a tabela do Ronaldo e do Juan...
Então
o que falta não é show. O Que falta é time consistente, seguro, que domina o
jogo, que sabe o que faz, que arma a jogada, que envolve o adversário... E isso
o Parreira não foi capaz de fazer em três anos, não vai ser capaza agora. O time
que jogou contra o japão chegou perto disso. O resto se resolveu em jogadas
fruto do talento individual dos jogadores. Às vezes foi mais fácil, como contra
Gana, às vezes mais difícil, como contra a Croácia. Vale lembrar que em 98 na
França, fomos até a final assim.
Mas tem uma coisa: diz a lenda que, com
o time de 70, era igualzinho. E os jogadores, liderados pelo Gérson, se reuniram
e decidiram resolver o problema sozinhos, porque se eles fossem na onda do
técnico, não ia dar certo. Então só nos resta torcer, assim como a gente às
vezes torce pro Rubinho.
Ah, sobre o Ricardinho: assim como o Roberto
Carlos não é ruim porque está fazendo uma copa ruim, o Ricardinho não é bom
porque está fazendo uma copa boa. Até eu já fiz 4 ou 5 lances geniais na vida. O
Ricardinho ainda tem muito "toca de lado Ricardinho" para descontar na vida
dele.
Escrito por Mascavo �s 11h36
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O senhor do tempo
Todos os dias fazia tudo sempre igual.
O despertador tocava, levantava, tomava banho, cagava, tomava café e ia pro trabalho. Sempre chegava meia hora atrasado, precisamente às 8h30.
Então, no dia seguinte, botava o despertador para tocar cinco minutos mais cedo, tomava banho mais rápido, cagava preocupado, tomava café e ia pro trabalho. E chegava meia hora atrasado, precisamente às 8h30.
Vez por outra, desistia de tentar. Botava o despertador dez minutos mais tarde, tomava banho devagar, cagava longamente, tomava café com calma. E chegava meia hora atrasado, precisamente às 8h30.
De tanto acontecer, percebeu que o melhor era relaxar. O chefe brigava todo dia, mas por mais que ele fizesse, de alguma maneira o tempo encarregava-se de fazê-lo chegar sempre na mesma hora. Na execução da rotina, checava o relógio várias vezes, para ver onde ele perdia tempo quando fazia tudo rápido ou onde ganhava quando fazia tudo devagar. Era impossível descobrir. O destino era chegar 8h30.
Depois da centésima ameaça de demissão e tentativa de chegar mais cedo, concluiu que o passar do tempo corria independente de suas ações. Por mais que corresse, 8h30. Se não corresse, 8h30. Se estivesse de ressaca e fizesse tudo em câmera lenta...8h30! Por isso, jogou o relógio fora. E, no dia seguinte, acordou meia hora mais tarde, sem o despertador. Encheu a banheira para tomar um banho quente e relaxante. Leu toda a Folha de S.Paulo sentado no vaso, inclusive os classificados. Usou pela primeira vez a máquina de fazer pão e fez seu próprio pão, que esperou com muita paciência e depois passou geléia. Viu as notícias na TV, enquanto saboreava a enorme xícara de café. Foi para o trabalho gozando a alegria de ser o senhor do tempo. Chegou precisamente 12h. Foi demitido.
Escrito por Sbub �s 08h24
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A última ficha ainda está loge de cair...
UPDATE: Escrevi esse texto pela manhã. Horas depois, fiquei sabendo que outro conhecido também morreu em um assalto. Maurício Mângia era o organizador a Thorns Gothic Rave, uma rave gótica em São Paulo. Eu fui assessor de imprensa de uma das edições. Ele era um cara complicado, mas também era legal. Então agora são três caras legais que eu conheço que morreram nessa guerra.
Se já não aconteceu com você, certamente aconteceu com alguém que você conhece: você compra um carro zero, um modelo italiano que acabaram de inventar. Todos os opcionais, acessórios ultra tecnológicos. Lindo! E custou barato, pelo que é. Um negocião, 20% mais barato do que os carros similares das outras marcas.
Só que na primeira semana o carro morre, do nada. Você leva no mecânico, ele diz que era um mal-contato, foi só um apertão, tá resolvido, não vai acontecer mais. Você sai da oficina, e o carro morre. Você volta e o cara diz que o fio estava oxidando, mas agora trocaram e não vai acontecer mais. No dia seguinte de manhã, o carro nem pega. Você leva em outra oficina, eles falam mal da primeira, estava óbvio que o problema era no sistema de injeção e eles é que são incompetentes e não viram. Trocam todo o sistema, você fica um mês sem o carro, mas fica confiante que não vai acontecer mais.
No dia seguinte você está felicíssimo por estar com seu carrão. Só que ele morre, no meio de uma avenida movimenta. Guincho, táxi, oficina novamente. E eles dizem que foi um problema de adaptação da peça nova, que ficou meio frouxa... mas agora vai ficar bom. Não vai acontecer mais. Mas você já não tem mais confiança no carro. Vai na concessionária e tenta devolver, trocar... eles ficam indignados, dizem que vão fazer tudo por você, que você é cliente preferencial, não devia estar passando por isso... Você fica feliz com as promessas. Mas depois eles nem retornam suas ligações... dão respostas evasivas...
E você vai se acostumando a conviver com o problema. Já conhece o cara do guincho... Já sabe os telefones da oficina, da seguradora e do rádio táxi de cor... já até aprendeu a andar de ônibus na cidade. Um dia você conversa um tio de um amigo, que já trabalhou como mecânico, que fala: é... tem carro que vem zicado... não tem jeito, você arruma aqui, quebra ali, não acha o defeito... a solução é vender. Mas você já tem medo de pegar um carro pior ainda... já pensou passar por tudo isso de novo? E afinal, você já está acostumado.. já até faz piada do assunto...
Triste, né? Para mim o Brasil é assim. A princípio, o lugar parece ótimo. A gente se sente sortudo de ter nascido aqui. Em se plantando, tudo dá! Não terremoto, não tem furacão, não tem terrorismo. O povo é tolerante. O Clima é agradável...
Ilusão. O lugar é cheio de problemas. Não tem terremoto, mas tem gente desabrigada. Não tem furacão, mas tem enchente. Não tem terrorismo, mas tem gangue e traficante dominando a cidade. É claro, são todos problemas solucionáveis... é só dar casas a preços populares, despoluir o rio e fazer piscinão, pôr a rota na rua. Você bota fé, mas no fim, o problema persiste. E você se acostuma...
Esse fim de semana um cara que eu conhecia morreu baleado num assalto no Rio. Ele se chamava Rodrigo Netto, era guitarrista da Banda Detonautas. Não era meu amigo. Mas eu pedi para fazer uma matéria com ele e ele passou mais de uma hora comigo, antes do show de estréia da maior turnê da vida dele, em que ele deveria estar ocupado com outras coisas. Mas não, estava lá dando atenção para um repórter de um veículo que ele nem conhecia.
Era um cara legal. Mas infelizmente, era só mais um dos milhares de caras legais que tem morrido bestamente por causa da violência que assola esse país. O que me chocou mais é que ele é o segundo cara legal que eu conheço a morrer em um assalto. É o segundo artista em pouquíssimo tempo a ser vítima de violência no Rio. O foda é que daqui a pouco, a gente vai se acostumar com isso também. E vai começar a fazer piada do assunto...

Rodrigo Netto (à esq.): só mais um cara legal que morreu à toa.
Escrito por Mascavo �s 11h10
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